Análise Institucional

 

A SOCIOPSICANÁLISE: Sua proposta

Autora: Raquel Corrêa Ferreira

 

INTRODUÇÃO

Em 1968, surge em Paris com Gerard Mendel, a Sociopsicanálise (Sp); esse autor cunha este nome para pressupostos teóricos que está construindo, o que faz

muito rapidamente, uma vez que em 1972, já tem três obras pessoais lançadas; e em 1971 já funciona um grupo de Sp, que lança uma obra coletiva em 1972 - Sociopsicanálise no 1 (sendo que a no 2 e no 3 saem logo a seguir).

 

Podemos organizar a obra de Gerard Mendel em torno a três temas ou eixos e duas etapas: Quanto aos eixos ou temas:

 

1)     estudo da autoridade em enlace com as instituições socioculturais - para ele a principal delas é a escola, em que ele centra sua análise, por ter esta, para ele, a possibilidade de desmontar os instituídos vigentes sociais e seu poder vigente.

2)     estudo da estrutura psíquica e sua relação com o político.

3)     a intervenção Sócio-psicanalítica.

 

Primeiro eixo - Tema da Autoridade, que passa na 2a fase ao Tema do Poder (1971)

“La Rebelión contra el Padre” - 1968 - tema da autoridade

“La crisis de las generaciones” - 1969 - tema da crise das gerações

“La Descolonización del Niño” - 1971 - tema do poder

“El manifiesto de la Educación” - 1973 - tema da crise da civilização

“Pour une autre Sociéte” - 1975 - tema do poder (2a fase)

“La Chasse Structurale” - 1977 - tema do poder (2a fase)

“Quand plus rien ne va de soi” - 1979 - síntese da Sp. (2a fase)

 

Segundo eixo - Aparelho Psíquico e Antropologização - em que já entra na 2a fase

“La Rebelión contra el Padre” - 1968 - prenúncios do aparelho psíquico

“Antropologie Diferentielle” - 1972 - estruturas do homem (já quase na 2a fase)

“La Chasse Structurele” - 1977 - estrutura psíquica e história (2a fase)

“La Psychanalise Révisitée” - 1978 - re-estuda a psicanálise e a estrutura psíquica (2a fase)

“La Crise est Polytique” - 1985 - a sociedade (2a fase)

“On est Toujour I’énfant de son síècle” - a sociedade e o aparelho psíquico (2a fase).

 

Terceiro eixo: a Intervenção Sócio-psicanalítica:

“A Sociopsicanálise” (vários volumes)

Primeiro volume - 1972: 

  • introduz os temas do político e do institucional - marca sua 2a fase
  • as intervenções
  • as instituições.

Todo o trabalho da Sociopsicanálise, vem funcionando em três frentes:

[1] a Associação de Sociopsicanálise;

[2] os grupos de trabalho (de intervenção);

[3] a pesquisa e a teoria.

 

Quanto às etapas (critério de autoridade/poder): 

 

[1] temos uma primeira fase introdutória em que procura a inter-relação Estado/Autoridade/Indivíduo.

[2] uma segunda em que aparece sua contribuição inovadora (no que diz respeito a como ocorre a junção psíquico/social) com a criação do conceito de nível do institucional.

Basicamente, a grande marca da Sp. é a visão de Mendel de que o fato social tem sua especifidade e o fato psicoafetivo também, havendo entre eles um contínuo; o possibilitador da construção desse elo é a pulsão de dominação a ser transformada em poder social ou Ato-poder. A pulsão de dominação é um elemento/conceito básico neste modelo, resgatado por ele no Freud dos Três Ensaios. Ela é um dado de saída no homem, a ser transformada como veremos, em poder grupal, e possibilitadora do nível institucional; a pulsão de dominação só vem a funcionar se se possibilitar o reunir e o fazer em grupo, numa auto-análise permanente, ou seja, se se possibilitar o surgimento do eu-político que atualiza a pulsão de dominação.

O institucional precisa da pulsão de dominação para se concretizar (realizar) e a pulsão precisa do coletivo para se atualizar. Só aí seria possível uma nova sociedade.

Na realidade, Mendel está construindo um aparelho psíquico sui-géneris, desde que este esteja em interação com o Social, aparelho que vai do psíquico ao político, e em que o coletivo e o psíquico entrecruzam-se num caminho de mão dupla: o institucional-político surge como um novo nível quando as pessoas se reúnem, que ultrapassa o do psiquismo, evitando os reducionismos comuns do político-social ao édipo-terceiro-imago paterna.

Façamos, primeiramente, um périplo pela obra de Gerald Mendel, de seu início até esta construção, à qual voltaremos, em seus desdobramentos.

 


PRIMEIRO CAPÍTULO

PRIMEIRA FASE - PRIMEIRAS OBRAS- TEMAS BÁSICOS

 

TEMA DE AUTORIDADE

 

Em seus primeiros três livros “Revolta” 1968, “Crise” 1969 e “Descolonização” 1971, Mendel foca sua atenção no tema da autoridade, suas fontes, sua crise nos anos 60, e a participação da escola e do poder social na construção da autoridade, ao mesmo tempo que foca o tema da subjetividade e sua montagem hoje - usa um raciocínio de montagem biopsico-sociológica; coloca a 1a - a autoridade - frente à 2a - a subjetividade; a autoridade é exercida e montada no âmbito do familiar e do paterno, de um lado e no âmbito do social, de outro; o Estado, ele, o chama nesse momento de Pai Forte, grande captador das subjetividades e interceptador. É exatamente esta equiparação Pai=Estado=Pai Forte que vai ser alterada posteriormente - seu grande Foco. Seu modelo nesta primeira etapa, desde “Revolta” é: o Poder Social é o conjunto das instituições (manifestações) Sócio-culturais, montadas pelo poder vigente e com uma minoria dona do capital; são essas instituições simultaneamente fruto das atividades dos indivíduos (que são construídos pela sociedade) mas em que elas - as instituições sociais - passam à ser as transmissoras do INCONSCIENTE e do Édipo (ou seja, as manifestações culturais é que transmitem o inconsciente e o Édipo, apesar de serem construídas pelo homem).

O Poder Social é o responsável pela interiorização da imago paterna, ao tirar o poder do pai real passando-o ao Estado, reforçando com isso a IMAGO do Pai Forte e tornando o ego submisso, obediente e temeroso diante dessa IMAGO. Para Mendel, a Escola é a instituição por excelência Sócio-cultural, transmissora das instituições Sócio-culturais e que portanto, se fosse transformada via intervenções, teria a possibilidade de construir uma nova sociedade.

 

Tema do Aparelho Psíquico

 

Vertente Biológica e Psicológica - como biologicamente, a criança nasce indefesa, e psicologicamente constrói IMAGOS, temos um campo propício para que as instituições dominem estas Imagos da subjetividade; já de saída, o Estado, à serviço do Modo de Produção Capitalista, domina e restringe o Poder Social possível dos pais e da criança em questão. Mendel coloca que a autoridade tem uma parte de sua montagem devida à uma fonte psíquica (Imago-Pai Forte), mas acha que sua perpetuação é condicionada pela sociedade e pelo M.P.C. (“Manifesto” e “Decolonização”), no momento em que o Poder Social usa a desigualdade de forças adulto-criança na ESCOLA, e apóia-se no elemento psico-afetivo do medo ao abandono, explorando-o e ampliando-o. Em “Revolta”, passa perto da formulação da segunda fase (sua inovação) ao falar do poder dos alunos ou da classe de crianças frente à classe dos adultos - aparecem as classes, ou poder grupal - só que as classes “ainda” vêm o poder apenas como poder PAI (como na psicanálise). Poder Institucional, Poder Social e Poder Familiar são todos equivalentes, um reflexo da IMAGO PAI; só há superação possível nesse momento, para Mendel, ou via o pai REAL (que na realidade não tem o Poder Social) ou via a escola (que é a instituição transmissora da autoridade vigente).

A Autoridade, portanto, é o Poder Social, e o Poder Social é o PAI. Formulação, ainda tradicional. O próprio autor critica, logo a seguir, este seu momento, chamando-o de neo-liberal, ao supervalorizar por um lado o psicológico, e ao equivaler o poder institucional com o Estado, e este com a Família (o Pai aí como figura básica) e ao equivaler a Subjetividade a suas Imagos. Entretanto, apesar disso, ele estuda a Autoridade e encontra-a sendo apropriada por minorias da Sociedade e vestida de três traços fundamentais - (a) uma desigualdade, vista como “natural”, entre quem a sofre e quem a exerce; (b) um comportamento submisso colorido de medo; (c) um mistério, somado a uma grande distância entre o de cima e o de baixo (o que vem a facilitar a imposição)

           

Ele se pergunta: O que gera a Autoridade?

 

Responde, dizendo que é o próprio Modo de Produção, que através do Social modela o ser humano a seu modo, ao usar suas características bio-psico-sociais.

Antes já havia enfatizado que essa autoridade vem da Imago paterna (construída psiquicamente); também montada pelo social e político; ou seja, estes não destroem as Imagos, mas as referenda ou mantém.

Entrecruzando o 1o Tema [a] a Autoridade e o 2o Tema [b] o Aparelho Psíquico - que em 1968 é psico-bio-social e em 1972 é antropológico ou antropogenético, temos uma contradição: Mendel afirma que um Pai Forte real, controlaria as Imagos construídas pelo psiquismo e surgiria um homem que enfrentaria o Poder Social. Mas, fica-lhe a pergunta: de onde vai surgir esse Pai Forte, com tal Poder Social dentro do Modo de Produção Capitalista? (O Modo de Produção Capitalista anula esse Pai Forte ou anula o que este faz, ao absorver todo o poder em si próprio, o Estado).

Vertente sociológica  - o poder social e as instituições Sócio-culturais, por sua vez, têm seus mecanismos próprios de transmissão de suas instituições, diretamente umas sobre as outras. O Poder Social é definido como um nome genérico dado ao conjunto das instituições sócioculturais; costumes, usos, escrita, modelos econômicos, sistemas políticos, realizações artísticas, formas de experiência religiosa, etc.; exercem pressão social sobre o indivíduo. A escola é uma instituição sócio-cultural, onde se efetua essa transmissão através das suas autoridades impondo a perpetuação de forma autoritária.

Ou seja, como vimos, a fonte da autoridade é psíquica e sua perpetuação é condicionada pela Sociedade (“Manifesto” e “Decolonização”); o Poder Social usa a desigualdade de forças adulto-criança por toda a parte inclusive na Escola, que é a mesma desigualdade das minorias do capital sobre as maiorias proletárias; para isso apóia-se no elemento psico-afetivo do medo ao abandono, explorando-o e ampliando-o.

A transmissão do inconsciente psico-afetivo por sua vez faz-se via as manifestações das instituições sócio-culturais (“Revolta”) as quais também se apóiam no esquema sócio-econômico de forças desiguais.

O Inconsciente e sua transmissão têm grande importância em sua visão, uma vez que é a rede formada pelas instituições a responsável por sua transmissão e, portanto, a que deve ser trabalhada. As Imagos do psicológico, que se mantêm no tempo, poderiam ser alteradas, assim como o poder que se mantém como Poder Social e como transmissor. Imago, portanto, é produto psíquico que é também produto de transmissão, alterável; falando de outra forma, é no entrecruzamento de nível psicológico-produtor-com o nível sociológico-transmissor-que ele coloca a transmissão e alteração do inconsciente.

Em “Revolta”, passa pôr perto de uma formulação que depois ampliará - a necessidade da recuperação do Poder Social dentro das escolas pode ser feita via a classe de crianças (alunos) frente à classes de adultos. Não criou, ainda o conceito de Político ou nível Institucional, nem de como esse nível funciona coletivamente.

Em “Revolta”, ele vê uma saída para a recuperação do Poder Social - pela recuperação racional pelo indivíduo (saída liberal), de poderes delegados em outros tempos aos deuses (poderes sobrenaturais) e que ao serem recuperados podem servir como força para uma rebelião contra o Pai, isto é, contra a Imago paterna inconsciente favorecendo uma recuperação do poder individual; mais tarde ele vai introduzir a proposta de Auto-Gestão; daí ele próprio chamar a saída anterior de liberal. Todavia, a escola já é um local onde a revolução do Poder Social pode ocorrer junto à classe alunos - e a classe professores; daí sua ênfase na escola, nesta etapa. Classes de idades, em oposição de poderes.

 

SÍNTESE, resumindo ele construiu as seguintes afirmações:

 

(a) o biológico define o ser humano como incapaz de sobreviver só de saída, como bebê;

(b) o psicológico é montado primeiro sobre a Imago onipotente materna e depois sobre a Imago forte paterna, que elimina a anterior, sendo que ambas deveriam ser ultrapassadas; esta última não é ultrapassável facilmente em nossa sociedade, devido ao Modo de Produção Capitalista; que as favorece;

(c) o pai adequado real pode levar na direção do corte das imagos e de obtenção de poder pessoal, mas isso dificilmente pode ocorrer hoje; devido ao Modo de Produção Capitalista;

 

(d) a família e a sociedade impõem que o sujeito vá numa direção - a da Imago autoritária ou da submissão ao Poder Social;

(e) a ideologia autoritária de base que perpetua a culpabilidade pela fantasia e a ideologia dominante ligada ao Modo de Produção Capitalista (“Manifesto”...) se entrecruzam gerando a ideologia familiar; estas três ao se inscreverem no aparelho psíquico do bebê geram dependência, mantêm a seguir a culpa montada pelo sistema e pelo Édipo, ou seja, alimentada pelas Imagos;

(f) a desigualdade do poder econômico aproveita-se do esquema psicológico; Mendel constrói duas frases contraditórias e ambas válidas em seu raciocínio:

“a ideologia dominante nasce da ideologia autoritária familiar de base” (Manifesto...)

“a fonte da ideologia é psíquica a qual apóia-se no biológico indefeso” (Decolonização...)

“a ideologia vem do “exterior” e usa a relação criança/adulto” (“Chasse”...) para a exploração;

(g) a perpetuação desse esquema é feita a serviço da manutenção da exploração econômica e ideológica, as quais ocultam a própria exploração, fazendo-a parecer natural; ou seja, a perpetuação da mesma e seu estilo, são condicionados pela sociedade (Estado, Poder Social, Econômico, Instituições) que duplica a exploração/ poder e disfarça-a;

(h) a ideologia dominante transmite o inconsciente através de suas manifestações Sócio-culturais (instituições).

Mendel constrói um modelo em que: - Pai Real (que quer tomar o poder) se opõe ao X Pai Imago (que fica com o poder); mas em que O Pai Social = Estado (fica com o poder); é um modelo que ele vai refutar em sua segunda fase, como inadequado à leitura institucional.

Em “Crise da Civilização” dá novamente uma montagem de homem: que tem parte natureza - elementos biológicos, conjunto de características fisiológicas; e que tem parte cultura - elementos induzidos nele pela história, sociologia, economia; e que tem parte psíquica - o Núcleo Antropógeno Específico, próprio do homem, que se constitui de processos psíquicos e de identificações primitivas (e mais características fisiológicas).

 


SEGUNDO CAPÍTULO

O HOMEM E SEU APARELHO PSÍQUICO

 

Vejamos resumidamente, o aparelho psíquico que propõe nessa primeira fase, em 68 (“Manifesto”, “Revolta”) e depois em 72 (“Antropologie Diferencielle”) já 2a fase. Uma leitura freudiana muito particular.

A perspectiva Sociogenética, como vimos, fala de um homem construído pôr uma vertente biológica, outra psicológica e outra sociológica. Essa montagem dá origem a estruturas específicas do humano que ele chama de antropogenéticas - dão a especificidade do humano.

Vejamos, mais focadamente, o aparelho psíquico e as estruturas antropogenéticas que o montam.

O Aparelho Psíquico ou a Estrutura Antropogenética monta-se em duas grandes etapas: 1º momento - Etapa Antropogenética do Arcaísmo e 2º momento - Etapa Antropogenética do Balanço. Esse aparelho é composto pôr: [ 1 ] - componentes fisiológicas: sobrecarga quantitativa energética e de angústia, e de discordância sensóriomotora; [ 2 ] - processos psíquicos - função fantástica (atividade dos Núcleos Antropogenéticos Específicos ou Sequência Fundamental),que é anterior ao fantasma (Imagos), e à formação de representações; [ 3 ] - identificações primitivas - divisão da Imago em boa e má e identificação com elas.

O Arcaísmo é a etapa em que os elementos no 1 dominam todo o ser nascente e só pouco a pouco introduzem os elementos no 2 e 3 formando a 2a fase. Os elementos básicos são de estimulações sensório motoras e sensoriais; a criança vai armazenando tais registros que se transformam em condutas automáticas devido a memória sensorial/corporal.

 

A PRIMEIRA ETAPA  - ARCAÍSMO - DIVIDI-SE EM 4 MOMENTOS: 

 

[ a ] - Seqüência Fundamental - etapa do Tudo ou Nada, que é o conjunto de dois Núcleos Antropógenos Específicos NAE-de-desagrado e NAE-de-prazer, que estimulam um ao outro - se um aumenta, diminui o outro; “são sensitivo - sensoriais e vão dar nascimento à atividade fantasmática”; há um movimento mecânico entre os N.A.E. de alucinação sem representação, que é proprioceptivo, tátil, auditivo, visual, etc. e que é a base pré-psíquica para o psiquismo que vai ser construído aí. Em “Rebelião” ele já dissera: esse estado fantasmático pode ser um estado de plenitude narcísica sem representações. Nem imagens, nem idéias ou conteúdos ideativos. Aqui temos o Ego - Todo. Mas também temos aqui o aparecimento da angústia ante o N.A.E. de desprazer.

[ b ] - Atividade Fantasmática - Pré-Ego + N.A.E. - só começa a se montar em torno do 6o mês, antes do Ap.Psíquico estar montado, e vai se constituir exatamente na base para a montagem desse aparelho psíquico. O fantasma no início é do eu, e posteriormente do pai e da mãe, - constrói imagos que estão na base do sentimento de identidade - como o eu toma consciência de si e confiança em si. O Fantasma primeiro é o do EU e depois o dos objetos, simultaneamente coloca o eu em relação com as Imagos.

[ c ] - Imagos - as Imagos são “nós de comunicação, fatores de organização fundamental, agrupamento de esquemas, conjunto sistemático de ondas mnêmicas, cuja característica é serem homogêneas”. (“Antropologie Diferencielle”).

A Imago boa é construída com a ida da pulsão libidinal em direção à mãe de onde flui vida, calor, alimentação, satisfações sensoriais, respostas gratificantes; tudo isto é unificado numa Imago. Por sua vez as frustrações e sua conseqüente agressividade, montam a Imago má.

A partir daí, a Imago do eu passa a se relacionar com estas duas Imagos; estas também se projetam sobre a natureza, que pode passar a ser local de alimentação

ou local de expropriação. É exatamente a troca - Imago EU - Imago Boa, ou Imago EU - Imago Má que vai instalar formas marcantes para a pessoa, de felicidade/infelicidade.

A conseqüente perda de proteção, leva a criança, pôr isso mesmo, a idealizar as Imagos boas (ou melhor, reforça isso) e os objetos reais; estes por sua vez complicam as coisas, pois colocam-se muitas vezes nesse lugar idealizado, confirmando fantasias de abandono e incapacidade ou impotência; essa mesma projeção vai fazer-se também, sobre as autoridades político - sociais, gerando uma impotência diante do social. Surge Autoridade social = pai. Aqui está o básico - pai = autoridade social (freudo - marxismo e outras tentativas), o que Mendel quer discriminar.

Mendel afirma que a caminhada para o segundo momento, depende de que o ambiente social interfira nessas projeções e montagens, e que influa na própria caminhada. Problema Político sério. Por isso, o homem está sempre nesse ir e vir uma vez que o Poder Social confirma o poder das Imagos e não ajudar a superá-las e instalar um EU com poder de enfrentamento ou Poder Social as do Eu.

O aparelho psíquico tem, pois, seu desenvolvimento próprio com suas Imagos e alterações das mesmas; a Imago paterna castradora tem um papel importante na montagem do aparelho psíquico, ou seja, na ultrapassagem da relação com a Imago materna onipotente; é aqui que Mendel coloca a origem psíquica da Autoridade - ou na Imago Materna ou na Imago Paterna Castradora; o pai real, pôr sua vez, quando forte e tranqüilo o suficiente, pode negar o pai castrador imaginário e possibilitar enfrentamento social e respeito. Temos em Mendel, pois, uma valorização do pai real no embate com as imagos (neste primeiro momento). A partir daí, é que se abre a possibilidade de uma montagem do ideal do ego, que ele valoriza muito, como um local de liberdade e criação, se bem construído; o ideal do ego é visto como resultado de convergência da libido (do narcisismo) e da identificação com o pai real que desmistifica o imaginário, e depois com os substitutos e os ideais coletivos; expressa-se na confiança em si, no clima afetivo que contribui para a aprendizagem da liberdade da participação na vida social. É esta passagem, via Ideal do Ego, que fica como local de possibilidade neste momento de sua obra; ou ele pode enfrentar o Poder Social, ou pode ficar submisso, mas o Pai Forte Real parece ser o único elemento possibilitador da passagem do imaginário ao social.

 

2º MOMENTO - ETAPA ANTROPOGENÉTICA DA BALANÇA:

 

Este 2o sistema está interposto entre as imagos arcaicas ou pré-sistema e o Ego futuro após o Édipo.

 

DIVIDI-SE EM 4 MOMENTOS: 

 

            [ A ] - 6 a 15 meses - etapa objetal oral

            [ B ] - 15 a 24 meses - etapa do ego-motor

            [ C ] - 3 a 5 anos - Compl. de Édipo/Mito de Prometeu

            [ D ] - Puberdade

 

[ A ] Etapa Objetal Oral - tem três processos básicos

 

a1 - quebra do eu em Eu-Sujeito e Eu-Objeto - o eu todo que recebia a libido narcísica, vai agora dividir-se, e a libido objetal sexual vai ao objeto enquanto a libido narcísica vai ao eu. É a etapa oral. Aqui, neste momento, cruza-se este fenômeno, com o anterior da Imago “boa”e “má” - a identificação do Eu-Sujeito com o Eu-Objeto pode ser total ou parcial.

a2 - montagem do eu ante o Mundo.externo: é feito em função de gratificações que ajudam a digerir as frustrações; ou, em função de excessivas frustrações que aumentam a agressividade, sendo que neste caso o sujeito não deixa o seu mundo fantástico.

a3 - maturação do eu - a motricidade funcional se desenvolve com a gratificação adequada.

[ B ] Etapa Eu - Motor - 15 / 24 meses - aparelho motor e pressão da mão - é aí que o sujeito começa a conquistar o mundo - é uma conquista ativa e com isto, a imagem onipotente “mãe boa” começa a se diluir;  o Pai externo é investido como possibilitador da relação ego-motor com o mundo.

[ C ] Complexo de Édipo e Mito de Prometeu - (Rebelião)

Mendel fala em “Rebelião” do Mito de Prometeu que ele considera como tendo maior grau de elaboração psíquica que o Édipo. É nesta etapa do C. de Édipo que surge a Imago do pai castrador.

Prometeu não só é o criador dos homens com argila, mas é também um benfeitor: engana Zeus, protege os homens; Zeus vinga-se privando os homens mortais do fogo. Prometeu rouba sementes de fogo à roda do sol e as dá aos homens; Zeus castiga-os, novamente, mandando Pandora distribuir sua caixa, plena de males, à humanidade. Prende Prometeu no Caúcaso e um pássaro come seu fígado, que renasce sempre. Hércules livra Prometeu, mas este leva sempre consigo um anel com o ferro das cadeias, para lembrar-se do castigo. Prometeu não é castrado, renasce sempre (castrado para Mendel é ficar à mercê da Imago ou do imaginário e não ter poder próprio). Podemos nos livrar do poder castrador. Como Prometeu renasce do fígado, também o homem o fará.

 

DESEJOS PRESENTES NO MITO:

 

-  desejo de castrar (roubar) o pai porque ele é Imago poderosa

-  medo à castração pelo pai como resposta ao desejo anterior

-  identificação com o pai, já feita antes

-  filho rouba e castra

-  filho projeta sua agressividade

-  e daí espera castigo

-   a castração simbólica pela águia é o castigo vindo do superego fantasma, mas a energia do fígado retorna sempre.

 

Ainda em “Rebelião”, ele analisa o nível individual e o nível coletivo do conflito: no nível individual, a criança interioriza a figura do pai, que traz identificação com o pai forte e conseqüentemente a formação do superego que proíbe o incesto e bloqueia o retorno atrás para o Eu-Todo ou à mãe fusionada “boa”; no nível social, o Poder Social mantém este conflito, pois o Estado através da coerção que começa na escola, continua na Faculdade e no exército, etc., repetindo o que a família faz: as pessoas dever voltar a ser crianças dóceis.

E como tal, fica só, com os fantasmas da mãe “má”, sem apoio do pai.

Cada vez mais, vai entrando em cena a leitura do poder Social, entrecruzando-se com a história Arcaica ou da Balança.

Para sair disto, precisaria da relação com o pai real positivo, acolhedor, que ajudaria a eliminar o fantasma castrador (castrar e ser castrado) - só assim se formaria o superego de tipo paterno. Mas a Autoridade reforça mais a Imago castradora. Se houver identificação com pai acolhedor, o amor a si mesmo ocorrerá, (volta do objeto ao eu) e se montará o ideal do ego, o que possibilitará os intercâmbios com mundo de acordo com as necessidades reais e não de afeto.

A culpa em relação à imago castradora – imaginário – é usada pelo Poder Social para submeter o sujeito; só há uma saída que é positiva, se as relações com o pai real na família forem positivas e se este fôr acolhedor, propiciando que o eu se oponha ao fantasma.

No coletivo, entretanto, é difícil que isso ocorra - o Poder Social e as religiões usam a culpa do fantasma. A Imago da mãe é fruto, pois, da situação original; e a Imago paterna, fruto da relação da Imago Edípica e do Poder Social. A Pulsão de Dominação, que surge no momento do movimento de se por em pé, e tem que ser valorizada para manter-se no aparelho psíquico, o Pai possibilitador e a mudança do Poder Social são a saída, então para Mendel.

 

[ D ] Puberdade

Para sair desse impasse, Mendel crê no Ideal do Ego como instância que possibilita o intercâmbio com o mundo real, uma vez que ela é fruto da superação do Narcisismo, ou seja, de todas as Imagos anteriores.

Em “Crise das Gerações” - diz que o adolescente tem um conflito diferente - com o social ao mesmo tempo que tem que fazer a superação dos primeiros conflitos: do ego-todo, do estágio pré-objetal, e do ego-motor.

A família nuclear e a figura paterna individualizada aliam-se à revolução técnica, o mais das vezes, e impedem que o adolescente tenha poder frente às instituições sócio-culturais. Mendel percebe presentes na família, as figuras do tipo paterno, como os professores e outros, ou figuras mistas, de mãe e de pai (características da fase Arcaica e Balanço) que impedem superar o conflito - e não permitem que tenha o adolescente um ideal do ego.

No nível sociológico está outro impedidor de mudança - o Poder Social; mudar pois, esse poder social, via a Escola, é sua 1a proposta, que vai colocar em cena tudo que precisa: pais reais fortes, e Poder Social.

 

TERCEIRO CAPÍTULO

A 2a fase - a inovação: o Político

 

De 1972 a 1977, G. Mendel dá uma grande arrancada auto-crítica e teórica, na direção cada vez mais clara da interpenetração de fatores sociais na construção de seu modelo de subjetividade, do corpo e do inconsciente; mas, o que é principal, constrói seu MARCO DIFERENCIAL - o Político e o ATO-PODER -, que ele apresenta como um grande contraste em relação às psicanálises vigentes e à psicosociologia. Apresenta ou cria um aparelho psíquico próprio, a que acrescenta o Complexo de Prometeu, precisa do intercâmbio aparelho psíquico/sociedade para poder propiciar mudança nesta interação (e na humanidade); e só vai consegui-lo se introduzir um conceito novo: o nível institucional (não edípico) ou nível do político.

 

1972 - “Sociopsicanálise” no 1 - introduz o nível do político, junto com o Socialismo Autogestionário.

 

1972 - “Anthoropologie Differentielle” - gênese das estruturas antropológicas; sociogênese do humano.

 

1973 - “Manifesto de la Educaciòn” - escola e autogestão

 

1975 - “Pour une autre sociéte” - alternativas possíveis ao poder social

 

1977 - “Chasse Structurale” - história e estrutura antropológica da caça e do homem

 

1978 - “Psychanalise Revisitée” - reformulações de sua teoria do aparelho psíquico

 

Desde o início de sua obra “Revolta...”, Mendel enfatiza uma visão do homem, que ele chama de “dinâmica” no sentido de um projeto do humano com aberturas e possibilidades de construção - “o homem fazendo-se homem” (Manifesto - pg. 99); é sua concepção antropogenética ou sociogenética de homem; este é o ponto de encontro entre a equipagem neurofisiológica (transformação dos aspectos biológicos) e a equipagem existencial, o sócio-cultural. É nessa encruzilhada que o homem se monta, mas se houverem relações sociais, isso ocorrerá; posiciona-se veementemente frente às posições organicista (hoje novamente muito fortes) que chama de fascistas.

Diz em “Sp.” 5 - “sua personalidade só pode desenvolver-se, assim como seus desejos, se houver uma transformação profunda da sociedade o que será obra progressiva da maioria de seus membros”. Ou seja, o homem tem que produzir uma nova Sociedade, que seja produtora de novos homens - homens na sua acepção da palavra, homens que possam reunir-se. Ele trabalha com duas concepções: uma dinâmica ou sociogenética e outra biológica. Ele acredita num homem que só se faz numa sociedade especial.

Já a concepção biologizante do homem, coloca o Foco do processo de humanização no cérebro; a evolução do cortex seria o que dominaria a motricidade voluntária e formaria o humano; (Chasse...), essa concepção vai do individual para o coletivo. A concepção sociogenética faz o contrário: enfatiza as relações sociais; a estrutura da caça (as relações de produção como dirá em “Chasse...” 1975) é que faz o cérebro mudar. O cérebro do homem mudou porque uma trama estrutural de relações de produção produziram ou favoreceram essa mudança. Em “Chasse...” ele faz uma análise de como a concepção biologizante gera posições políticas retrógradas, individualistas e de ditadura dos sábios; a educação gira nesta posição em torno a desenvolver o genético com dons já dados a priori. Produz e é produzida por tecnocratas superiores que devem definir as condições de vida alheia - diz Mendel.

Já a 2a, a sociogenética produz e é produzida pelo coletivo, pela estrutura da relação, de um mundo em mudança e em questionamento - onde tudo é produzido.

Mendel está propondo, não só sua visão da especificidade do humano, que se desenvolve dentro das relações sociais, mas principalmente, uma visão HISTÓRICO-DINÂMICA, ESTRUTURAS (relações recíprocas) da construção do humano ou do processo de humanização. (Chasse pg.115)

Fala de um homem que é um agregado de fatores bio, psico, socio, mas fala também de um homem que se produz ou aflora historicamente e numa trama estrutural de relações.

Mendel luta contra o fixismo, o a-históricismo, o eurocentrismo, as idéias finalistas, o “natural”. Com a Caça estrutural (“Chasse”) e mais a sociogênese está propondo à

 

Sociogênese do

humano

 

+

Sociogênese do

Corpo

 

 

+

Sociogênese do

inconsciente

 

Para ampliar a questão da sociogênese do humano propõe um esquema histórico:

 

uma variedade de homens em 4 milhões de anos

 

+

verticalização

 

+

caça

estrutural

 

+

caça

 

 

+

 

 

 

 

 

 

 

imagens do

corpo

+

sistema volitivo do

corpo humano

 

membros

superiores

mãos

+

corpo como

um todo

 

 

 

Quatro mil anos atrás uma variedade de homens-Australopiteco-começou a caçar como lobos e para isso montou e viveu uma trama de combinações - de lugar, de permuta, de espaço, de ação. Esta ação específica, ademais, usou o fenômeno de liberação das mãos, que já estava ocorrendo. A estrutura da caça escolheu esse tipo de homem e não outros.

Quanto à sociogênese do corpo, refere-se ao momento estrutural em que as mãos libertaram-se dos pés e do chão, e diferenciaram-se; o ato corporal, então, passam a gerar uma imagem corporal globalizada e integrada, e um poder individual do corpo sensível - estava já se montando uma estrutura complexa de início de humano, na área do individual.

Na área do coletivo, surgiu a caça que usa o corpo liberado sempre num grupo. Na Caça Estrutural por sua vez - “cada caçador realiza uma trama de combinações (muda de lugar, permuta com outros, organiza o espaço e a ação da caça). O que conta não é o ato individual por si só, mas a relação conjunta, que determina a estrutura da caça.”

Estrutura = “sistema de relações entre unidades, sendo estas identificadas não por sua substância, sua realidade física, mas por suas relações recíprocas” - Mendel - “Chasse”...”

Quanto à sociogênese do inconsciente - diz em “Rebelião”: o inconsciente é “não só o vasto conjunto de alienações que escapam à consciência, mas é uma força precisa, nascida da contenção, com organização particular, mas que persegue com soberba indiferença seus próprios objetivos para e contra todos”. “Só aparece secundariamente na história do homem e no processo de humanização” (“Chasse”...)

Sua própria transmissão é Sóciocultural - é através de suas instituições sociais, que ele se transmite (“Rebelião”) - “Cada momento histórico transmite uma problemática ao Ego e ao Inconsciente.” Para Mendel, o inconsciente não está vazio, não é uma estrutura isomorfa à linguagem, não é metamorfose do código genético. Sua proposta histórica vem a ser: esse homem fruto de mudanças estruturais, feita ao longo de milêneos, foi montado pelo Paleolítico e a seguir pelo Neolítico, e continuado pelos Modos de Produção.

No Paleolítico era forte a imago materna-mãe-natureza doadora infinita nos primeiros momentos; a imago materna facilitava a união amor/ódio em representações específicas, mas ao mesmo tempo limitava as mesmas, com sua cisão própria bom/mau, o que não dava equilíbrio aos dois polos.

A passagem do Paleolítico ao Neolítico traz uma introjeção da Imago Paterna, que levou milênios, e que ultrapassa a economia das imagos maternas e dos dons da natureza-o já dado, passando-se ao construir: a colheita, a caça, o gado, a pesca.

O Neolítico traz uma nova relação com o meio ambiente, com a mediatização da Imago Paterna-explorar a natureza. É a antropologização do homem e a Sociogênese do humano junto com o Histórico.

Se o homem do Paleolítico vivia as relações mãe-natureza (à mercê dela, segundo a leitura de Mendel), no Neolítico entram em cena as religiões do pai; no séc. XVIII - vêm os pais-sábios, também no séc. XVIII, ao Poder Social é também delegado o poder do pai; e hoje tem-se o pai-técnica (“Crise...”). Para Mendel, o homem do séc. XX está à mercê da técnica, e de seu modelo de eficácia. Ele crê que, em vez do conflito psíquico produtivo, e em vez de ideal do ego pós-edípico de liberdade e justiça, o homem enfrenta os valores do personagem social que está no Poder, e por isso não sai da posição infantil e da destruição de tudo (projeta agressividade no exterior). Além disso, o Poder Social é visto como Pai aliado à Mãe, o que impossibilita a saída da posição infantil.

 

Estas mudanças foram fruto de vários elementos sócio-genéticos e não só individuais ou de psicogênese. Foi fruto de:

 

 

Modificação do

Modo e Relação

de Produção

 

 

+

 

Modificação das

relações familiares

e sociais

 

 

+

 

Formação da

Imago Paterna

inconsciente

 

 

+

Evolução das

Formas Religiosas

p/ o Monoteísmo

(as religiões do Deus-Pai)

 

O ideal do Ego é o resultado da liberação da libido do narcisismo + identificação com o pai real, o que gera confiança em si. Se há regressão volta-se novamente às formas arcaicas.

Daí, o autor atribuir grande importância à escola hoje: é ela que pode alterar as condições de relação de produção, de ordem econômico-social e distribuição de poder. Ele vai acrescentar agora, que a distribuição do poder só é possível via a auto-análise do grupo que propicia o atingimento do Nível do Político - que vem a ser isto? É o central dos próximos capítulos.

Antes, porém, é importante definirmos o conceito de instituição para a Sociopsicanálise. Esse termo aplica-se para a Sociopsicanálise ao “conjunto de indivíduos organizados segundo os dois níveis da divisão do trabalho e que caminham complementarmente à sociedade como um todo”. Daí a sua ênfase no que é chamado de organização, porque para ele, aí ocorre o Poder Social da sociedade como um todo.

 

I - EU SOCIAL E EU PSÍQUICO / O POLÍTICO E A POLÍTICA

Mendel, para poder lidar com o social e o psíquico, busca dois conceitos essenciais para sua montagem da teoria da Sp.: um da psicanálise - pulsão de dominação; e outro do marxismo - plus valia, excedente do capital.

Os homens vivem numa sociedade em que não há igualdade entre as pessoas ou entre as classes sociais, nem na melhor das democracias - os aspectos jurídicos, ideológicos, políticos estão montados para que se favoreçam aqueles que detêm o poder econômico em suas mãos. Mas esse econômico, que é o capital, é sempre um plus de trabalho de alguém. A partir deste raciocínio, Mendel cria o conceito de Plus-valia de poder, um plus de poder que era de todos ou de cada um, e que passa a ser de um só; são os poderes muito concentrados, e o mais das vezes, disparatados, que ocorrem nas organizações. Para que esse poder seja dividido exige-se a Auto-análise e a Auto-gestão. Estas duas estariam propiciando o surgimento do Eu-social ou Eu-político e do político. Eu-político é o poder que emana de cada um, quando está atuando em um grupo sem a plus valia de poder, ou seja, com a distribuição do poder; e alterando-se assim o social de dentro da ação. É nesse momento que a Pulsão de Dominação está se colocando em ação; a pulsão está sempre disponível, mas o M.P.C. impede sua atualização. Ao reunirem-se e analisar o poder, o Ato-poder atualiza a Pulsão de Dominação.

O conceito - O Político - é então a possibilidade de que uma organização se divida nas classes institucionais; cada andar do organograma ou classe institucional usa seu poder reunindo-se e agindo conjuntamente, cada indivíduo com seu poder no grupo; isto gera o poder intra-grupo e o poder inter-grupos (entre os andares do organograma) repetindo a contradição de classes sociais e tentando ultrapassá-la. Quando há plus valia de poder em uma só pessoa ou poucas, há o recalque da pulsão de dominação e a regressão ao nível psicofamiliar - eu individual ou psíquico (ao Édipo e narcisismo).

O eu-psíquico corresponde às etapas de narcisismo (Arcaica e Balanço) e do Édipo(Sp.1), em que se projeta nos demais, as figuras de poder correspondentes à Imago Materna (narcisismo), - poder-onipotente ou Paterna (Édipo) poder-forte funcionando em alianças duais, ou triangulares, sempre verticais; em vez das uniões horizontais de cada andar; se estas projeções ocorrem, o grupo está no nível psicofamiliar. A passagem ao nível institucional depende de um trabalho institucional horizontal grupal, de uma intervenção e não de psicanálises individuais. Quando nem mesmo o nível psicofamiliar funciona mais, as pessoas adoecem e cai a instituição no nível somático. (a doença a nível bio-físico-químico)

 

 

ANÁLISE DA PLUS VALIA DE PODER

 

LEVA AO

 

NÍVEL INSTITUCIONAL

 

 

 

EU-POLÍTICO

 

O mundo da luta de classes na sociedade, compõe para ele a Política, com suas instituições abstratas e concretas; nossa sociedade, como enfatiza ele, está organizada por divisão em classes sociais e não por modelos de parentesco (Sp. no 1) e é necessário que o Político, com sua luta de classes seja atingido e analisado, para que a Política flua.

À Política pertencem os partidos e os sindicatos, cujo objetivo é conquistar o poder do Estado, uns para combater o capital nos lugares de produção e outros para manter o poder do capital vigente.

O Político constata a existência de classes, como conseqüência da divisão do trabalho, da separação entre os donos dos meios de produção e os produtores. Estas classes sociais estão ligadas a diferentes graus de exercício do poder no político-jurídico, no econômico, no ideológico. O Poder torna-se então algo ligado à propriedade dos meios de produção e ao dinheiro, à autoridade, à força, à informação, à cultura, à idade, ao sexo. Classe possuidora é aquela que, em qualquer lugar que esteja, exerce poder sobre as outras classes.

Sua própria definição de classe social já se monta sobre “possessão ou não possessão do ter, enquanto poder unilateral sobre as outras” (Sp. 1) No M.P.C. é ter os poderes enumerados acima. Ele afirma que seu conceito de classes não se reduz às duas do marxismo, já que prefere falar em superclasses, e não possuidores, para poder incluir os docentes, os educandos, o pessoal hierárquico, os colarinho branco (finalidade não econômica), etc. Em Sp 1 ele diz que não quer reduzir as classes a duas (capital e proletário) mas quer incluir os docentes, etc, ou seja todos os que possuem algo: dinheiro, bens culturais, conhecimentos, informações, etc.

O mundo das organizações-instituições, com seus andares hierárquicos ou classes institucionais, constitui o Político. As organizações-instituições são lugares privilegiados, onde se pode tomar consciência ao vivo do econômico, do político, da questão das classes, das contradições, mas principalmente do Poder em Grupo e com ação a partir daí (institucionalmente). Novamente ele amplia o conceito de classes, ao chamar cada andar de classes institucionais. E o faz porque quer exatamente chamar todos, onde quer que estiverem, para a ação dentro da questão de classes.

Quando o Ato-poder é individual, está usando o aparelho perceptivo, psicomotor, esfincteriano, etc., a serviço do indivíduo; o Ato-poder coletivo é o realizado pela classe institucional e age sobre o ambiente social, com os Atos-poderes de cada indivíduo resgados do recalque.

Toda sua ação e teoria da sócio-psicanálise vai consistir exatamente em possibilitar ou facilitar o surgimento do homem social ou político - o ego social, que implica no nível institucional ou político nas instituições - organizações - estabelecimentos. É por isso que suas intervenções Sócio-psicanalíticas vão trabalhar cada nível (“andar”) com um analista específico para o andar. E durante muito tempo, porque o que pretende atingir é uma mudança de concepção e de ação - ou seja, uma inserção diferente no local de trabalho e no social mais amplo.

 

QUARTO CAPÍTULO

Os níveis e suas decorrências; a Intervenção

 

Mendel construiu nesta 2a fase, uma teoria em que há um contínuo entre o biológico, o psíquico e o institucional, sendo que o Poder Social imbricado à Antropogeneização do Homem, favorece ou desfavorece uma progressão ou regressão dos sujeitos e grupos na construção desses níveis.

 

Os níveis são três, como já vimos:

  1. nível institucional: pessoas agrupadas nas classes institucionais dos locais onde trabalham;
  2. nível psicofamiliar: organização psíquica a que se regride, do Édipo ou do Narcisismo, sempre que o Poder Social não permite a progressão ao nível 1;
  3. nível somático: adoecer que surge tão logo falham os Édipos e Narcisismos no local de trabalho, ou seja, nova regressão.

 

O nível no 1 é, então, uma possibilidade e não uma garantia; é algo a ser construído penosamente, contra todos os empecilhos sociais e do Estado.

 

Daí decorrem três conceitos a serem levados em consideração na Intervenção Sociopsicanalítica:

  1. regressão do nível do político ao nível do psíquico ou familiar está ocorrendo constantemente nas instituições; é algo inevitável no nosso modo de produção; as intervenções têm que ser muito longas para que os sujeitos se apropriem da questão e levem esse know-how para onde forem ou seja, aprendam e queiram funcionar em grupo, conquista essa bastante difícil;

 

  1. há uma exigência pulsional de poder de classe no nível institucional, com um prazer específico advindo da relação de igualdade expressa no poder pessoal e no poder grupal vindos da pulsão de dominação em ação; a pressão religiosa entretanto, as autoridades educacionais, a ideologia imperante, a psicomanipulação, o poder policial etc, etc, impedem esse prazer de realizar-se; as pessoas nem têm consciência desse prazer, mas só do prazer de poder individual, autoritário, sobre o outro ou outros;

 

  1. plus valia de poder - a divisão do poder entre todos na classe institucional gera o prazer do 1o nível, e a plus valia de poder (só alguns têm poder) gera o prazer do nível psicofamiliar (2o nível).

 

Nas intervenções constata-se que quando as classes institucionais ocupam o poder e o distribuem, surgem fenômenos inter-classes que vão novamente servir de impedimento à manutenção desse nível institucional: um deles é o fenômeno de culpa de classe, culpa de exercer o poder sobre a classe acima (como se fossem os pais, afloramentos do recalque do nível psicofamiliar) ou de poder sobre a classe abaixo, como se fosse perverso dar ordens, exigir, ter poder institucional enfim; surge o medo de não ser amado “pelos pais” ou “pelos filhos” - desrecalque do nível psicofamiliar; os níveis de cima têm também medo que os “filhos” tirem-lhe o poder. No intraclasse um 2o fenômeno:- surge a fantasia de irmandade, que consiste no medo de que ao serem um grupo institucional, e ao falarem tudo que é necessário, surjam atritos entre os “irmãos”, surja agressividade e destruição do amor ou perda de uma falsa coesão, que existia devido ao silêncio institucional; surge a angústia de despedaçamento tão logo se interpretam os fenômenos anteriores, e esta angústia só se desvanece e dá lugar ao nível institucional, quando bem interpretada - vencer-se o medo aos atritos nas negociações institucionais.

 

Há várias formas sob as quais aparecem as regressões ou fantasias:

-         admiração de pais prestigiosos na política e simultânea sensação de incapacidade de saber algo ou fazer algo.

-         projeção de desigualdade de direitos constantemente no social, idealizações de alteração para um mundo ideal, em vez de se lidar com o intra-grupo em que há reclamações constantes de desigualdade no trabalho.

-         os superiores chamam os inferiores de “meus filhos”

-         permanente rebelião contra os “pais sociais” - problemas sociais na forma de reclamações, agressões, oposições constantes, porque o grupo faz uma projeção na “imagem” inconsciente coletiva da imago paterna ou materna onipotente, de quem espera tudo, em vez de serem eles os atores de mudanças; isso gera impotência e inatividade, porque não se atinge o nível político, que está bloqueado e que seria o possibilitador de ação e poder com o desrecalque do poder e sua pulsão.

 

Após/ ou simultaneamente à análise do interclasses e do intraclasses, o 3o fenômeno que surge é o dos valores ou instituições abstratas vigentes no grupo e dos quais este não tem consciência e que bloqueiam a todo momento o fluir da ação.

Intervenção - A Intervenção deve ser conduzida por vários Sóciopsicanalistas, um para cada nível, devido a toda a conceituação apresentada anteriormente. Após a intervenção, eles devem ter horas semanais de discussão para a junção dos vários níveis e para o trabalho de contratransferência, interpretações, pagamento, técnica em geral. Deve haver um certo número de profissionais que não está indo ao local - o grupo que fica de fora e pode analisar os elementos que não foram vistos pelos que estão imersos na intervenção.

Esta pode ser quinzenal, com duração de 2hs (por 1 ano, 2 até 10 anos); ou pode ser de fins de semana, repetidos uma vez ao mês.

Os Sociopsicanalistas são pessoas que vêm de fora para analisar os impedimentos de progressão do grupo, mas que também têm interdições idênticas, daí a necessidade da existência do sub-grupo não presente às intervenções, e de uma ampla discussão entre os dois sub grupos.

As sessões devem ser gravadas, com consentimento do grupo, para que a análise seja feita, assim como a publicação, coisa a que Mendel e seu grupo dá enorme importância, para que se mude constantemente a teoria.

 

CONCLUSÃO

 

O social e o psicanalítico foram acoplados por Mendel de uma forma diferente da de Freud ou da dos freudo-marxistas - o político é um nível. O contínuo entre os níveis implica a regressão e progressão psicanalíticas, mas como há o acréscimo de um nível acima do psico-familiar (do  Édipo e do Narcisismo) desloca-se  questão central no nível político é a questão do agrupar e da resistência ao agrupar; e mais, um agrupar que tem dentro de si o poder-pulsão, e não a identificação com ou idealização dos podres poderes vigentes.

 

RAQUEL CORRÊA FERREIRA

 

BIBLIOGRAFIA

 

Gérard Mendel - “Sociopsicanálisis”- nº 1 - Amorrortu - 19 - B. Aires

Gérard Mendel - “Sociopsicanálisis”- nº 2 - Amorrortu - 19 - B. Aires

Gérard Mendel - “La Psychanalyse Revisitée”- Ed. La Découverte - 1988 - Paris

Agustín Requejo - “Sociopsicanálisis y Educación - Hogar del Libro - 1984 - Barcelona